Primeiro passo: planejamento

Quem nunca traduziu um livro tende a achar que os tradutores editoriais têm todo o tempo do mundo para executar seu trabalho. Afinal, não têm que ficar à disposição de agências ou clientes diretos, não têm entregas diárias – nem sequer semanais –, não têm quase nenhuma cobrança externa. Porém, a tradução de um livro, independentemente do tamanho, é um projeto longo e trabalhoso. Estamos lidando com um trabalho que pode levar de dois a mais de seis meses, dependendo do caso.

Exatamente por não existir essa cobrança externa, é preciso um esforço maior da parte do tradutor no que diz respeito a organização e planejamento. Na minha opinião, essa etapa de preparação é tão importante quanto a execução. É claro, cada um tem seu método, mas eu conto com uma planilha que me ajuda a calcular a viabilidade de cada livro que traduzo. Assim que recebo a proposta de uma editora, imediatamente faço o cálculo de laudas/dia para definir se aceito o prazo proposto ou se será necessário renegociar.

Nesse cálculo, é preciso levar em conta a produtividade média diária de acordo com o tipo de livro (assunto, nível de complexidade do texto) e deixar uma BOA margem para imprevistos.

É muito fácil ter acesso ao texto antes de aceitar uma tradução. Mesmo que a editora não tenha o arquivo digital para enviar (o que é cada vez mais raro), é possível acessar trechos da obra nos sites que comercializam os livros ou na página no próprio autor. Dessa forma, é possível ter uma ideia do que esperar do trabalho.

Quanto à margem para imprevistos, costumo calcular de duas formas. Primeiro, nunca considero minha produtividade máxima como base para o cálculo. Todos sabem que não rendemos cem por cento todos os dias. A tradução, apesar de seu viés intelectual, não deixa de ser um trabalho físico. Dependemos de horas diante do computador, digitando, senão o trabalho não sai. Assim, são inúmeros os fatores que podem interferir em nossa produtividade diária. Entre eles: sono, cansaço, dores, distrações, fatores externos (como barulho, telefone, interferência de outras pessoas).

Em segundo lugar, acho importante não usar o prazo todo no cálculo inicial. É interessante deixar uns dias de sobra para outros tipos de imprevistos. Doenças (do tradutor ou alguém da família), problemas pessoais, compromissos, falta de energia elétrica ou problemas com a  internet (sim, essas coisas acontecem). Se nada disso acontecer, ótimo, o trabalho fica pronto antes do prazo e todo mundo fica feliz. Se acontecer, o tradutor está “coberto” e não precisa se desdobrar para dar conta do prazo.

Depois de todo esse planejamento vem a parte mais difícil, cumprir o cronograma tão cuidadosamente elaborado. Mas isso é assunto para outro post. Fiquem de olho!

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10 comentários sobre “Primeiro passo: planejamento

  1. Gostei bastante do post, Flávia. Concordo com você em tudo, mas principalmente sobre deixar aquela margem para os imprevistos de todo o tipo. Justamente porque o trabalho é longo, nesse meio tempo pode acontecer de tudo… Eu mesma me vi frustrada muitas vezes quando não consegui cumprir uma programação diária e tive que correr para compensar nos dias seguintes e não deixar a bola de neve crescer. Apesar de ter alguns dias sobrando no final, é melhor eu me garantir em quanto posso, não é mesmo?
    E as pessoas ainda acham que a nossa vida é fácil, hehe!

    • Obrigada pelo comentário, Monique.
      Você tem razão.É sempre melhor se garantir mesmo. Vai que acontece mais alguma coisa depois, não é? 😉
      Continue visitando nosso blog e dando sua opinião sobre os textos.
      Abraços.

  2. Flávia, seu post veio sob encomenda. Recebi minha primeira proposta para traduzir um livro de não-ficção, com um prazo inviável. Graças às dicas de colegas experientes nessa área e ao que acabo de ler no seu artigo, já mandei minha resposta propondo negociar o prazo e dando bons argumentos para isso. Nada como estar cercada de colegas competentes. 🙂
    Obrigada!

    • Oi, Bete.
      Fico feliz que tenha gostado do texto. Não somos ninguém sem planejamento, não é? Muitas vezes a editora não considera uma série de fatores na hora de estabelecer os prazos. Ainda bem que (quase) sempre existe uma margem para negociação. 😉

      Continue comentando aqui no blog. 😉

      Beijos,

  3. Excelente artigo, Flávia. Objetivo, informativo e muito realista. Manter a disciplina é importante em qualquer profissão, mas para quem trabalha em casa o esforço é maior (muito maior, às vezes).

    • Oi, Renato.
      Que bom que gostou do texto.
      Muita gente acha que é mais fácil trabalhar “por conta”, né? Posso listar inúmeras coisas boas, mas temos que aprender a lidar com a parte difícil também. 😉

      Beijos,

  4. Terminar qualquer projeto no prazo e sem correria é um desafio. Sempre me imagino como aquela escola de samba que põe as alas para correr no final com o pessoal passando quando o portão já está fechando. Zero, nota zero em harmonia. Queria muito ser metódica mas sou caótica. É um esforço sobre-humano focar e me contentar em agir de acordo com a meta principal. Minha estratégia é dividir tudo em pequenas metas e prever um tempo de recuperação para cada etapa. Assim a onda não fica muito alta e eu não corro o risco de levar um caldo muito grande no inevitável caixote. Também procuro fazer uma versão bem acabada de cada etapa de modo que a tentação de voltar para reformar o mundo de novo possa ser controlada. Haja postura do herói, mantras e reza brava para domar minha tendência a passear distraída pela internet entrando e saindo de sites cada vez mais distantes daquela palavrinha que eu saí para buscar lá atrás e cujas migalhas, deixadas pelo caminho, já foram devoradas pelos passarinhos me deixando sem caminho de volta…Pensando bem, o que estou fazendo por aqui mesmo? Hora de ligar a bússola e voltar para o trabalho. bye…

  5. Pingback: Cadê o foco que estava aqui? | Ponte de Letras

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