Qual é o seu QI?

A primeira vez em que parei para pensar na palavra “tradução” foi quando a vi num livro da minha irmã mais velha. O livro era grande e eu me lembro de ter visto o nome da  tradutora brasileira, o nome da autora americana e ligado uma coisa à outra. “Nossa! Essa moça passou todo o texto em inglês para o português! Quanta coisa!” foi o que pensei. Eu tinha 11 ou 12 anos, estava começando a estudar inglês. Alguma coisa despertou dentro de mim ali (talvez por isso eu me lembre tão claramente desse fato), e deixei a tradução de livros na lista de “possíveis profissões a seguir”.

Os anos se passaram e depois de desistir da ideia de ser arquiteta, voltei para a tradução (de livros). E foi tudo extremamente natural, escolhi a faculdade de Tradução e Interpretação certa do que queria fazer, como se fosse a única opção existente: eu traduziria livros. Ponto. Até então, ninguém tinha me dito se era fácil ou difícil ser tradutora literária, se eu passaria meses ou anos buscando uma chance no mercado, nada. Eu tinha a minha decisão e a meta estava traçada. Talvez a pouca idade tenha me impedido de ver o lado negativo, o lado do “e se não der certo?”. Não existia o “não”. Eu sabia que chegaria ao meu objetivo de traduzir livros.

Na faculdade, claro que escutei alguns professores dizendo que traduziam os poucos livros que apareciam, mas que a tradução técnica era muito “mais comum”. Era como se não estivessem falando comigo. E não estavam, porque eu nunca quis traduzir texto técnico, queria traduzir livros! Então busquei, desde o primeiro mês na faculdade, oportunidades de trabalho com editoras. E foram meses e meses de muita pesquisa de mercado editorial e de muito envio de currículo até conseguir uma chance de revisar um livro. Mas ela chegou. Era o que eu queria? Não, eu queria traduzir livros! Mas eu sabia que aquele seria só o primeiro passo dentro do mercado. Como eu sabia? Sabendo. Eu sempre soube que traduziria livros! 🙂

Um ano depois, pronto, minha vez chegou. “Virei” tradutora de livros! De lá pra cá, continuei fazendo revisões, que são um ótimo treino para as traduções, mas meu trabalho principal é traduzir livros!

Você cansou de ler “traduzir livros”? Eu fui repetitiva por um motivo: vou falar de INSISTÊNCIA.

Quando comecei a entrar em contato com editoras, eu não conhecia outros colegas tradutores. Eu tinha professores tradutores (com quem não estabeleci relação de trabalho) e tinha colegas de faculdade (que não eram tradutores). Não aconteceu comigo o tradicional “QI” (quem indica). Comigo, teve muita QI, mas de “Quanta insistência!”. Sim, eu insisti. Insisti em enviar currículo para as várias editoras e, meses depois, repetir o envio, insisti em não desanimar quando não recebia resposta, insisti em continuar mesmo quando recebia um “Obrigado, entraremos em contato se precisarmos”, “Nosso quadro de colaboradores está completo”, “Não trabalhamos com tradutores que ainda não tenham traduções publicadas”. Eu insisti em insistir.

Quando me pedem conselhos sobre como entrar no mercado, a primeira coisa que digo é: insista! Esqueça a ideia de que o mercado editorial é uma panelinha de tampa bem vedada, de que é impossível entrar sem um QI (quem indica), de que nenhuma editora dá chance. Eu sou prova de que é possível, sim.

Muitas pessoas desanimam depois de tentar contato com meia dúzia de editoras grandes, quando na verdade, deveriam estar em contato com as menores também, traduzindo como voluntário para ONGs, tentando incrementar o currículo e, claro, praticando, estudando e buscando conhecimento em oficinas, congressos etc. É preciso paciência para esperar o momento certo, aquele dia em que seu currículo será recebido por um editor que esteja precisando de alguém com seu perfil, por exemplo. Ou que possa guardar seu contato para uma oportunidade que virá meses depois. Persista. Mantenha seu trabalho atual e, nas horas vagas, busque contatos, encontre meios de avançar na busca do objetivo.

Tenho colegas com experiências diferentes, claro, que mudaram de profissão porque a tradução “aconteceu” na vida deles. Tudo bem. Mas decidi escrever porque fui alguém que colocou a ideia na cabeça e chegou onde queria, por isso acho que tenho certa base pra falar de insistência.

Esperar por oportunidades é bem diferente de criar oportunidades. Daí saíram os nossos dois “QIs”.

Você pode viver atrás de quem indica, mas quem insiste faz acontecer.

Manter-se no mercado é outra história e não é meu foco neste texto, mas certamente é um assunto que podemos abordar mais pra frente.

Por enquanto, eu só quero saber uma coisa:

Qual é o seu QI? 😉

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23 comentários sobre “Qual é o seu QI?

  1. Excelente texto e conselho, Carol. Parabéns e obrigada por dividir com a gente a sua experiência.
    Lembrando que a “Quanta insistência” não deve ser interrompida quando as vacas engordam. Deu uma brechinha no trabalho? Q.I. pra todo lado, entre contato com editoras, networking com os colegas e aperfeiçoamento em cursos e congressos.

    • Obrigada pelo comentário, Roseli. Concordo totalmente. Precisamos insistir sempre, sem parar 🙂
      beijos.

    • Que bacana ler seu comentário, Camila, e saber que estamos contribuindo de alguma forma 🙂 QI sempre! Volte mais vezes pra contar como está sendo a transição. Boa sorte e um abraço!

  2. Parabéns pelo texto! Também insisti muito e estou começando a colher os frutos do meu trabalho! Assim como você, nunca quis a tradução técnica, só quero traduzir livros, hehe.

    • Colher os frutos é excelente, mas o plantio sempre recomeça, Monique 🙂 QI! QI! Tudo de bom pra você.

  3. Gostei do seu texto. “Quanta insistência” pode ser traduzido por “água mole em pedra dura….” Com certeza, às vezes demora um pouco, mas as portas se abrem para quem insiste e persiste.

    • Exatamente, Teresa! E o que a Roseli comentou é uma grande verdade: a gente nunca deve parar de insistir 🙂 Obrigada pelo comentário! Um abraço

  4. Já estou há alguns anos trabalhando com tradução literária e minha história começou e vem seguindo adiante com muita insistência e, felizmente, resultados compensadores. E a gente acaba ficando mestre nessa “arte” de insistir, misturando persistência com educação e caprichando sempre nos trabalhos, para se garantir quando finalmente consegue o teste, ou o trabalho. E concordo você, Carolina, quando diz que o plantio sempre recomeça. É isso aí! E vamos ser sinceros: poucas coisas são mais estimulantes profissionalmente do que conseguir, pela sua insistência e pela qualidade do seu trabalho, traduzir para aquela editora que você mais queria! Vale o esforço! Parabéns pelo texto!

    • Tem razão, Ana, a sensação de conquista é ótima 🙂 Que bom saber que mais gente concorda comigo, que teve a trajetória parecida com a minha. Muito obrigada pela contribuição e volta sempre, inclusive para comemorar os novos livros 😉 Beijos

  5. Carolina, sempre digo isso às pessoas. A maioria delas fica insistindo em criar “Q.Is” quando na verdade deveriam insistir em se aperfeiçoar e fazer o que você fez e o que eu também fiz. Eu ligo, insisto, persisto, teimo (e tudo com bom-senso para não soar como a “chatona”). Bom saber que não estou sozinha no caminho. Abç

    • Verdade, Amanda. Ou então, mandam CV uma única vez para as grandes editoras e desistem. Eu sempre digo que recebia, no começo, 1 sim para 200 nãos ou 200 silêncios. Acho que minto, porque era um sim para cada 500 silêncios, na verdade 😉 Não, você não está sozinha. Boa sorte sempre e abraços.

  6. Fiquei com a mesma palavra que a Camila Fernandes na cabeça, antes de ler o comentário dela: inspirador, Carol! E motivador, também. Como você, desde que resolvi ser tradutor sabia que seria de livros (embora vez ou outra pegue alguma daquelas coisas técnicas chatas :D), mesmo ouvindo aqui e acolá que a tradução técnica tem mais campo de trabalho, paga melhor – e, claro, que o mercado editorial é muito difícil de entrar. Não posso negar, as editoras com as quais já trabalhei vieram do “Quem Indica”, mas nunca saí pedindo indicações. Também já procurei muito, recebi as mesmas respostas (ou a mesma falta de resposta) que você, fui reprovado em alguns testes, aprovado em tantos outros que não se converteram em trabalho (pelo menos até hoje!), já desanimei, reanimei e continuo tentando. Vamo que vamo!

    • Heitor, vamo que vamo! Nada de desanimar, muito menos desistir 🙂 Acho que a satisfação de pegar um livro e saber que você participou do processo apaga toda a dor do “antes”. Só os apaixonados por esse mundo entendem o que estou dizendo, certo? Beijo

  7. Oi, Carolina! Adorei o texto! Você falou exatamente do momento por que estou passando: revisando, preparando, casualmente lembrando os editores que faço traduções também… Também sou dessas que quer porque quer tradução literária, rs. Fazer o quê? Bom saber que não estou sozinha em mandar CVs e receber aquele silêncio em troca.

    Enfim, parabéns a todos pelo blog! Acabei de descobri-lo e já vi que vou adorar passar um tempo aqui. 🙂

    • Estamos no mesmo barco, Isa, e é muito bom contar com pessoas com objetivos semelhantes. Você quer porque quer e vai conseguir porque certamente está fazendo por onde 😀 Apareça sempre e muito obrigada pelo comentário. Um abraço!

  8. Olá, Carol, já nos conhecemos virtualmente e pelo telefone. Não sei se você se lembra. Agora estou insistindo muito e, por coincidência, li seu texto e vejo que posso continuar insistindo, pois agora meu foco é traduzir livros também. No entanto, há uma diferença de que também gosto de revisar livros rs, então estou insistindo para as duas coisas. Quando puder, visite meu blog AS Edições: http://www.asedicoes.com.

    • Oi, Alline, eu me lembro de você, claro!! 🙂 Que bom que está insistindo, fico feliz por saber que está determinada. É isso aí, as coisas vão se ajeitando. Boa sorte! Obrigada pelo comentário, volte sempre e vamos manter contato!
      Beijos

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