Sobre Fama, Glamour e Pantufas

Muita gente pensa que a profissão de tradutor literário é cercada de uma aura romântica, que traduzir livros é uma arte cheia de glamour. Hora de desconstruir mitos: não tem aura romântica que vença a luta contra nossa querida e velha amiga, ela, Mrs. Line. Sim, Deadline, ou Tia Dédi, como a chamamos carinhosamente entre nós, tradutores. Cadê o romantismo de escrever contando palavras, fazendo planilhas e projeções, dividir o texto em cotas diárias para garantir que tudo vai estar pronto no dia combinado? É claro que o prazo faz parte do pacote, é um componente inevitável da rotina de um tradutor e, portanto, não estou reclamando. Mas Tia Dédi é uma senhora prática, totalmente avessa a rasgos de romantismo.

E o tradutor literário é ou não um artista? Há quem diga que sim. Pessoalmente, prefiro falar em talento. Escrever é prática, exige conhecimento, estudo e técnica. Traduzir também exige o domínio do idioma de partida. Traduzir literatura exige um tipo específico de leitura e escrita. E aí que, eu acho, entra o talento para dar uma forcinha. Mas que profissão prescinde dele? Não é o talento que diferencia e destaca um profissional excelente do que é só competente e bem formado? Então, o que faz pensar na palavra “arte” quando refletimos sobre o trabalho de um tradutor literário? O elemento estético. Traduzir um livro exige todo esse conhecimento, toda essa bagagem técnica e “corriqueira”, informações variadas e disponibilidade para pesquisar sempre e sobre tudo, mas exige também a preocupação com a “cara” do resultado final. O original é um livro. A tradução continua sendo um livro. E como toda arte, a literatura não prescinde da estética e dos componentes que mobilizam a emoção do consumidor final, o leitor. Pensando nessa preocupação necessária, é preciso admitir, então, que o tradutor literário é, de certa forma, um artista.

E o glamour? Ah, o nome na folha de rosto do livro que é sucesso de vendas, na ficha técnica daquela obra logo na entrada da livraria no shopping, na notinha que sai no jornal… Francamente, me digam, quantos leitores leem o nome do tradutor na folha de rosto do livro? Um em cem? Nem isso? Sim, já dei algumas entrevistas para jornais, revistas e sites, e até já participei de um programa de televisão. Garanto que isso não mudou minha vida em nada.

De novo, minha opinião: o nome do tradutor literário no livro é uma declaração de que ele, como outros profissionais, trabalharam para produzir aquele bem de consumo e levá-lo ao mercado para o consumidor final, o leitor. Uma obra literária é um bem de consumo? Sim, na medida em que tem um preço e é comercializada, na medida em que autor, tradutor, revisor, editora e outros elos da cadeia recebem por isso, vivem do trabalho de produzi-la. Se você for ler a bula de um remédio ou o rótulo de um cosmético, vai encontrar lá o nome do farmacêutico responsável. Um chef assina o cardápio de um restaurante. O pintor assina sua tela. Alguns produtos são chamados de arte, outros não. Mas todo profissional tem direito ao reconhecimento de seu trabalho. É evidente que não estou aqui comparando o trabalho do tradutor literário ao do farmacêutico, do chef ou do pintor. Estou apenas afirmando que, artista ou não, todo profissional deve ter reconhecida a autoria de seu trabalho. E o nome no livro é mais uma forma de reconhecimento, entre tantas outras.

Mas e o escritório, o climão, a eterna xícara de café, os gatos, a fumaça de cigarro, a cortina fechada, as madrugadas de silêncio? Isso é puro romantismo, é cena de filme!

Lamento muito se decepciono alguém, mas… meu escritório é só mais um quarto do apartamento. Amo café, mas o cheiro da xícara vazia me enjoa, preciso tirá-la da minha mesa assim que acabo de beber. Parei de fumar há doze anos, nada de fumaça perto de mim. Não gosto de gatos, mas nisso sou minoria. Se pudesse, teria um labrador dormindo no chão do escritório. Quem sabe um dia? Não tenho cortina na janela, adoro sol, calor e céu azul (que tradutora é você, Débora?). Trabalho melhor durante o dia, e de madrugada eu adoro dormir. Se faz frio, trabalho de moletom, meia quentinha e pantufa. Se faz calor, estou de short, camiseta e descalça (amo ficar descalça). Vou contar um segredo, tenho uma colega que tem uma pantufa do Pernalonga (não vou entregar ninguém, mas ela pode se identificar, se quiser). E tenho colegas que, naquelas manhãs de temperatura de um dígito, trabalham embaixo do edredom e nem tiram o pijama!

Cadê o glamour do tradutor literário, então?

Sei lá… quem sabe se a gente aplicar uns paetês na pantufa?

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6 comentários sobre “Sobre Fama, Glamour e Pantufas

  1. Débora, o que você descreveu é muito realista. Poderá trazer desânimo aos que não têm o talento, mas certamente trará empolgação aos que têm o talento e a esperança. Parabéns pelo excelente texto.

  2. Pra mim, o glamour está no fato de tradução de livros ter sido a primeira atividade profissional que realmente me deu prazer, depois de muitos anos atuando em outras áreas do mercado. Belo e necessário texto.

    • Prazer, alegria, satisfação… Acho que não tem glamour maior do que ser feliz no caminho que escolhemos.

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