Existe cultura inútil?

Outro dia estava assistindo a Os Simpsons – um dos poucos programas de TV a que prefiro assistir dublado – e um trecho de um diálogo me chamou a atenção. Era um daqueles episódios de Halloween, meio nonsense, que eles chamam de Casa da árvore dos horrores, mas isso não vem ao caso. O que importa é que no episódio aparecia a versão amarelo-Simpson de Orson Welles e várias referências a ele e sua obra, a começar pela transmissão radiofônica intitulada “A guerra dos mundos”, uma adaptação da obra homônima de H. G. Wells que, em 1938, fez com que muita gente entrasse em pânico ao pensar que a Terra estava realmente sendo invadida pelos marcianos mencionados no livro. Mas toda essa explicação também não vem ao caso.

Só que em determinado momento, o chefe Wiggum está discutindo com o Sr. Welles e solta algo parecido com: “Afaste-se ou eu acerto seu nariz, camarada”, e o outro imediatamente repete para si mesmo, super pensativo: “Nariz camarada…” Estranho. Olhei para a cara do meu marido, que estava ao lado, e levamos dez segundos para falar em uníssono: “Rosebud”. Pelo diálogo em português, reconstituímos a fala em inglês e fizemos a relação que o tradutor daquele episódio não conseguiu fazer. Nariz camarada > Nose bud > Rosebud. Claro! O interlocutor, no desenho animado, era Orson Welles, diretor de Cidadão Kane, filme que começa com o personagem interpretado por ele próprio dizendo a palavra Rosebud pouco antes de morrer. Certo, não vem ao caso…

Ou vem?

Confesso que mesmo identificando a referência, o trocadilho não seria nada fácil de traduzir. Mas identificar já é um enorme passo para quem se dispõe a fazê-lo. Nosso trabalho é fazer a ponte entre os falantes de duas línguas diferentes e reproduzir aos leitores (ou espectadores) da obra traduzida o mesmo impacto que o texto (ou a fala) teria para os leitores (ou espectadores) do material original. Toda tradução implica perda, mas se passarmos por cima de trocadilhos e referências, a perda é um milhão de vezes maior.

E eu não estou falando apenas de identificar referências de TV, cinema e livros, entre outras coisas, citadas nas obras que traduzimos. Muita gente, como eu, mesmo estudando e lendo muito em língua estrangeira, não tem aquela vivência cotidiana da língua.

Mais uma historinha. Minha amiga Janaína estava com dúvidas para traduzir diálogos informais. Eu sugeri que ela assistisse ao seriado Breaking Bad (poderia ter sugerido vários outros, mas esse é bom demais) e prestasse atenção no ritmo das falas e no vocabulário utilizado pelos personagens. Vem ao caso? Não ajuda exatamente na tradução, já que a ideia era escutar os diálogos em inglês. Mas ouvir, em vez de apenas ler, já acrescenta diversos elementos que acabam facilitando a transposição de diálogos escritos em inglês para falas mais naturais em português. Dá para notar a ênfase dada às palavras, a frequência e as situações em que aparecem. Faz sentido para vocês?

Tudo isso para dizer que, principalmente quem traduz literatura (mas não só), pode se deparar com qualquer coisa no texto. Pode ser física quântica, filosofia e história, mas pode ser também Doctor Who, Star Wars ou Meu querido pônei. Tradutor tem que ser um bicho culto e curioso, e cultura não é só alta literatura e filmes cabeça.

That’s all, folks.

PS: (Eu poderia traduzir essa última frase como “Isso é tudo, amigos”, mas como sou fã de uma boa cultura inútil e assisto ao Pernalonga, sei muito bem que a tradução consagrada é: “Por hoje é só, pessoal”.) 😉

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4 comentários sobre “Existe cultura inútil?

  1. Vou compartilhar pq vc falou em Doctor Who 😉

    Mas, sério, acho que as pessoas em geral não percebem que traduzir é muito diferente de ser tradutor. Achei essa sua sugestão de ouvir seriados modernos e bem escritos (Breaking Bad é foda mesmo) para perceber o uso, rítmo e frequência das palavras fantástica e ilustrativa!

  2. Flávia, acho pertinentíssima a sua pergunta (existe cultura inútil?) e minha resposta para ela é não. Para mim, “cultura inútil” é que nem “travesseiro da Nasa”: você sabe a que a pessoa está se referindo, mas também sabe que o nome está errado, rs! Toda cultura é útil em algum momento da vida. Se não numa situação de trabalho, ao menos para regalar um colega com uma curiosidade oportuna.

    Como anedota: ao fazer preparação de texto, eu já corrigi uma tradução incorreta (no sentido de não corresponder à forma como o público brasileiro conhecia o tema) sobre Star Trek, que eu sabia, mas o tradutor ou tradutora talvez não tivesse como saber por não conhecer o universo da série (eu mesma não conheço muito, mas o pouco que sei serviu bem naquela hora). E, por não ser uma pessoa de ciências, já precisei pedir ajuda a uma amiga e colega de profissão para traduzir uma belíssima metáfora científica que eu estava tendo a maior dificuldade para entender (imagine então adaptar). Para errar menos, também já pedi a ajuda de colegas aficionados por motos para acertar nomes de peças automotivas que não constam no meu dicionário. A cultura “inútil” dos amigos também é útil. E a cada livro que traduzo ou preparo eu adquiro um pouco mais desse bem valiosíssimo. 😉

    • Camila, obrigada pelo comentário.

      Sua colocação foi ótima. Concordo com você, a cultura “inútil” dos amigos também pode ser muito útil para a gente, uma vez que é impossível estarmos familiarizados com todas as referências do mundo.

      O importante, ao meu ver, é conseguirmos identificar que ali naquele trecho tem algo a mais e saber que precisamos ir atrás daquilo. Sem a pulguinha atrás da orelha, acabamos passando batido por essas riquezas do texto.

      Um abraço e volte sempre ao Ponte de Letras.

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