Traduzir séries: mais um, e mais um, e mais…

Já faz um tempo, principalmente no segmento infantojuvenil (ou young adult), que as histórias chegam ao leitor em partes. A narrativa se desdobra em trilogias, quatro, seis e até doze partes (ou mais!). São o que conhecemos como “séries”. Nos últimos anos, elas têm atraído um público cada vez maior e mais diversificado. Nós duas, Flávia e Débora, conversamos muito sobre esse tema, pois um forte ponto em comum em nosso trabalho é justamente a tradução de séries.

Por isso resolvemos contar no post de hoje um pouco sobre o que acontece por trás daquela história que parou há seis meses em um ponto interessantíssimo, deixando muita gente ansiosa pela continuação. Como é começar uma série que já virou ou vai virar filme? No caso de traduzir uma série “começada”, como garantir a continuidade de um trabalho iniciado por outro colega, que já criou um vocabulário, várias soluções e um estilo para a tradução? Como, depois de um intervalo com outros trabalhos, retomar o estilo daquele autor que você já havia traduzido?

A Débora já teve a experiência de traduzir o último e menor livro de uma série que foi, provavelmente, um dos maiores sucessos de público dos últimos tempos, e confessa que viveu momentos de aflição pensando que seria impossível manter tudo que a colega havia feito nos quatro livros anteriores, todos enormes, e alguns já exibidos em adaptações nas telas dos cinemas. Foi ótimo desmistificar o monstro da continuidade. Se a editora fornece uma bula, um glossário, e todo o material traduzido anteriormente, continuar uma série sem deixar fios soltos não é nenhuma missão impossível. A breve segunda vida de Bree Tanner foi um trabalho que a encheu de satisfação, porque mostrou que a coesão entre todos os elos da cadeia editorial sempre produz um resultado de alta qualidade.

A Flávia já traduziu séries inteiras – do primeiro parágrafo do primeiro livro até o ponto final do último –, mas também já trabalhou em um volume aleatório que o tradutor de uma determinada série não teve tempo de fazer, e já iniciou séries que acabaram ficando para outros colegas darem continuidade.

Começar uma série exige do tradutor alguns cuidados, porque apesar de acreditarmos que, “em condições normais de temperatura e pressão”, o ideal seria todos os livros passarem pela mão do mesmo tradutor, é sempre necessário pensar que outro colega pode ter que continuar a tradução. Os motivos são variados. Quem garante a disponibilidade do profissional que começou a série no momento em que a editora precisar da tradução? Como antever as decisões e os critérios da editora sobre quem vai continuar o trabalho?

As séries exigem, sim, alguns cuidados diferentes dos habituais. E além da atenção com a criação de um glossário que possa ser usado por um colega, do arquivo cuidadoso com todos os dados para consultas futuras (seja quem for o tradutor), ainda é preciso ter sempre claro que cada volume de uma série é, ao mesmo tempo, um trabalho isolado e um trabalho que se estenderá em outros livros. Acima de tudo, o que importa é o tradutor fazer o que estiver ao seu alcance para que o leitor chegue satisfeito ao final da história que passou muito tempo acompanhando, sempre mantendo a sensação de que está lendo o autor do original, não o tradutor.


Então, como preservar essa sensação, se há dois ou mais tradutores trabalhando na mesma série? Como garantir que o leitor passe de um volume ao outro sem perceber a mudança, sem comparar os resultados? De que maneira os elos da cadeia editorial podem se relacionar para assegurar a maior uniformidade possível?

Nós não temos respostas prontas. E vocês? Como leitores do blog, que sugestões dariam para o processo ficar bem afinadinho até o livro chegar às mãos do leitor?

1… 2… 3… Valendo!

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7 comentários sobre “Traduzir séries: mais um, e mais um, e mais…

  1. Sei que o segmento editorial é mais conservador e não exatamente fã de CAT tools, mas eu sugeriria algum tipo de corpus bilíngue dos livros. Ficaria muito mais fácil consultar todos os volumes da série sempre que surgir alguma dúvida. A segmentação precisaria ser diferente, talvez por parágrafo.

    • Val, a ideia é muito boa. A utilidade da ferramenta nesse caso específico (entre outros) é indiscutível. Mas como provar essa utilidade em um segmento que, como você disse, é mais conservador? Que argumentos poderiam ser usados?

      • Para lidar com gente teimosa só encontrei uma solução, até hoje: em vez de tentar convencer, botar logo a mão na massa e fazer, mostrar que ficou bom, melhor que era antes. A resposta geralmente é “tem razão, fica bom, né”.
        Mesmo sem usar CAT na hora de traduzir (muitos tradutores preferem, e eu lembro de algumas situações que você me contou ao longo dos anos em que fica mesmo mais complicado usar), eu alinharia os volumes anteriores.

      • Val,

        Como você mesmo disse, em alguns momentos é bem complicado usar a CAT para literatura, por exemplo. Sei de tradutores que usam com sucesso, mas em alguns pontos fica complicado. Há diversos pontos (os diálogos, por exemplo) em que a segmentação fica mais complicada. Em geral recebemos o livro em PDF, o que demandaria bastante tempo para arrumá-lo e, no frigir dos ovos, o tempo de aceleração da CAT tool talvez não compense o que levaria para arrumá-lo (ou mandar arrumar). Tenho vontade de testar mais, por exemplo, o MemoQ para tradução literária, mas o tempo anda escasso. Mas vamos conversar melhor sobre isso, o Café com Tradução será uma ótima oportunidade. 😉

  2. Não traduzo, só copidesco, mas sempre que faço séries (a maior parte do meu trabalho), tenho criado uma planilha com várias abas, separando por personagens (principais – os que são constantes – e os pontuais), lugares e outros nomes. Na série de fantasia que estou fazendo agora, tem ajudado e vai ajudar muito no futuro, para ver incongruências e, como foi falado aqui, não dá para saber se os mesmos editores e tradutores cuidarão do resto da série, e mesmo que cuidem, ninguém tem memória de elefante e o trabalho pode ser facilitado =)

    • Obrigada pelo comentário, Gabriel.

      Você está certíssimo. A melhor forma de não deixarmos passar nada é manter tudo organizadinho. Com tanta coisa na cabeça, fica difícil confiar só na memória. Não custa nada facilitar o trabalho.

      Um abraço

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