Copi malquisto

Não faço preparação de texto nunca mais!

Eu já disse isso, vários colegas já disseram isso e sei que ainda vamos dizer mais um tanto de vezes.

Estou falando aqui da preparação de textos mal traduzidos que obrigam o preparador e, muitas vezes, o revisor e até o editor a retraduzirem frases e mais frases porque o trabalho do tradutor deixou a desejar.

Como posso julgar um tradutor? Não posso. Quem pode? Todo tradutor já foi um profissional inexperiente um dia, quis enfeitar o texto sem dever, todo tradutor já pensou ter entendido o sentido de uma frase sem entender, todo tradutor já deu uma escorregada ou outra num texto simples, bobo, aparentemente impossível de errar.

Mas compreendo totalmente o lado do profissional que sente até medo quando lê a pergunta: “Aceita pegar um copi?”.

Uma editora já me disse que os melhores revisores são os tradutores, e eu concordo. Lidamos com o texto diariamente, precisamos evitar repetições, buscar formas mais claras de dizer aquela frase que, no original, está toda enrolada, lapidamos o texto com mais rapidez. Mas por mais rápidos que sejamos, como demora uma retradução! Como é duro fazer o cotejo e perceber que quase todas as frases têm cara de “tradutês” (e uma cara feia, ainda por cima).

Há tempos procuro entender por que isso acontece e continua acontecendo. É difícil determinar o porquê, mas acredito que o tradutor que traduz mal não sabe que não traduz bem. A menos que aja de má-fé e jogue o texto num tradutor automático da vida, o tradutor que traduz mal:

1)   não tem jeito para a coisa e ainda não percebeu;

2)   ainda é inexperiente e precisa rever muitas vezes os próprios erros e tentar aprender com os acertos dos outros.

O tradutor que não tem jeito pra coisa e ainda não percebeu precisa ser avaliado por meio de testes antes de qualquer trabalho. Precisa de um editor que saiba avaliar esse teste e o tempo de “praça” desse profissional. Talvez, com X anos de praia, ele já devesse traduzir melhor. Mas se o tradutor ainda estiver cru e o editor perceber que ele tem potencial para melhorar, e principalmente se ele for inexperiente, talvez seja o caso de ser “trabalhado” com textos mais simples, em projetos que permitam mais tempo de dedicação, prazo mais folgado. Já fui inexperiente (apesar de ainda me considerar como tal em muitos momentos), e já tive um editor que resolveu apostar no meu progresso. Assim, ele me deu muitas dicas (“Olha, legal aqui, mas ali você podia ter trocado por outro termo”) e fazia uma coisa que foi essencial para o meu desenvolvimento na profissão: mandava o meu texto traduzido, depois de passar pela preparação, de volta para mim, para que eu observasse as alterações feitas pelo preparador e visse onde podia melhorar. Eu sentia uma vergonha danada de algumas correções, mas anotava tudo e passei a incorporar nos textos seguintes. Uma ajuda valiosíssima.

Com tudo isso, uma conclusão: as etapas do processo editorial precisam estar ligadas umas às outras. O editor precisa saber escolher o tradutor, o tradutor precisa ter conhecimento de texto e se esforçar ao máximo para entregar uma tradução sem cara de tradução, o preparador precisa estar disposto a limpar o texto (e a salvá-lo, se for o caso, já que aceitou fazer o trabalho) e o revisor precisa estar pronto para pegar o que a preparação não pegou (sim, porque erro também vicia, e o preparador pode passar a achar normal um texto todo duro – não é proposital). Apontar o erro alheio não resolve, ir a público dizer que a tradução do Fulano não está bacana, que o livro tal foi mal traduzido, é coisa de amador ou de pessoas que, no mínimo, não se deram conta de que o erro é o inimigo a ser derrubado todos os dias, em qualquer profissão, e de que podemos ser vitoriosos na maior parte do tempo, mas também existem os dias ruins.

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23 comentários sobre “Copi malquisto

  1. Carolina, excelente texto, e de grande relevância para todos nós da área. Pergunto: ele já foi publicado nos grupos de Tradutores do FB? Um abraço.

    • Olá, Luis,
      Muito obrigada!
      Divulgaremos em outros grupos ao longo do dia, mas fique à vontade para espalhar o link por aí, se quiser 🙂
      Um abraço.

  2. Carolina, um texto como esse é um verdadeiro bálsamo para as dores (e delícias) de quem executa todas essas tarefas e às vezes se sente em meio a um fogo cruzado de opiniões protecionistas: tradutores defendendo a tradução, preparadores defendendo a preparação, revisores defendendo a revisão e ninguém a fim de dar o braço a torcer. É preciso lidar com o fato de que não somos infalíveis. Obrigada por dizer algumas verdades duras e necessárias.

    • Concordo, Camila. Admitir a nossa falibilidade é o primeiro passo para entender que o outro também vai errar e não sair por aí insinuando que “Eu faço tudo direito, mas o colega ali…”. Acho que não existe um só culpado. E se nos unirmos para deixar coeso o processo todo, ganharemos e aprenderemos muito mais.

  3. Como já disseram, excelente texto. Dá vontade de imprimir e deixar aqui na mesa para olhar nas horas vagas e me inspirar.

  4. Adorei o texto também. Lembrei de uma preparação que eu acabei aceitando.

    Fiquei com raiva do tradutor, fiquei frustrada, deu vontade de jogar o note pela janela, deu vontade de jogar o original no GT e usar a tradução dele como base, jurei que nunca mais aceitava trabalho assim, mas acho que foi uma das experiências que mais melhorou a minha tradução.

    • Aline, eu acho que não existe exercício melhor para um tradutor do que um copi cheio de coisas pra ajeitar. Você vê o erro, vê a frase truncada e além de dar um jeito de resolver, questiona as próprias escolhas em situações semelhantes. 🙂 Os textos bons também são grandes professores, porque nos ensinam a aceitar ideias diferentes das nossas. Pode não ser o que você escreveria se estivesse traduzindo, mas se está certo, por que mudar?

      • Pois é, rs. Já me disseram que bons preparadores estão em falta no mercado. Deve ser porque todos estão ficando de saco cheio e se tornando tradutores, por razões óbvias… rs!

  5. Perfeito, Carolina! Obrigada por compartilhar com a gente esse sentimento tão comum, mas tão pouco comentado.

    • Eu agradeço pela participação, Luciana. Hoje pude ver que muitas pessoas entendem e concordam com o que penso e escrevi. É uma grande injeção de ânimo. Nenhum profissional é uma ilha; acho muito importante que todos os envolvidos tenham consciência de seu papel e o dos outros também para o bem do processo todo e principalmente do produto final. 🙂

  6. Eu, tradutora de espanhol (de Letras, aliás, Filologia), fiquei com uma vontade, dentre outras, de ter um editor, revisor, alguém mais experiente que me oriente naqueles momentos!!! Para esse empurrão que vc disse! Já tenho uma certa experiência, mas no Brasil parece que tudo é “quem indicou”, então… E trabalhar com bons profissionais do lado, faz toda a diferença…

    No mais, noto mais humildade e companheirismo em revisores do que tradutores!! 😉

    • Um editor bacana fez toda a diferença na minha vida profissional, Marcela. Não sei se concordo com essa ideia do “quem indicou”. Eu só passei a ser indicada recentemente, mas entendo o que você quer dizer. Vai ser assunto para outros posts, mas arrisco dizer que os tradutores são menos unidos porque “criam” um texto sozinhos, enquanto os revisores corrigem textos alheios. E é da natureza humana se sentir mais à vontade quando o foco é o outro. Talvez, talvez 🙂
      Obrigada pelo comentário!

  7. Muito bom teu depoimento enfatizando a necessidade da cadeia de profissionais unidos pelo bem do livro e do leitor. Respeito e entrosamento entre todos os profissionais é fundamental, pena que tão pouco aplicado pelas editoras em nome da pressa imposta pelo ritmo industrial. Parabéns!

    • Pois é, Nanete. Mesmo com o ritmo industrial, acho que muita coisa melhoraria se o processo todo fosse mais coeso.
      Obrigada pelo comentário 🙂

  8. Pingback: A perna maior que o passo | Ponte de Letras – Ano 2

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