Que Viagem!

Eu tinha 16 anos quando uma professora de Filosofia me emprestou Cinco Lições de Psicanálise, de Sigmund Freud, e me aconselhou a ler o livro sem fazer perguntas. Ela prometeu que, assim que eu terminasse a leitura, teríamos uma conversa muito interessante. Não entendi o que ela pretendia, mas Dona Zelinda era minha professora preferida, e lá eu fui ler o tal livro. Quanto terminei, minha vida havia mudado para sempre. Fiquei tão fascinada com aquela magia da interpretação, com aquela teoria maluca, que decidi cursar Psicologia. Tivemos a tal conversa, e Dona Zelinda me contou que havia percebido em mim um dom natural, o que só reforçou a decisão.

Foram cinco anos de PUC-SP em período integral, muitos sonhos, muitos planos, alguns realizados, outros deixados pelo caminho. E um belo dia, já em 1989, acordei e me vi trabalhando no RH do Metrô de São Paulo, e não sabia nem como tinha ido parar lá. Não era aquilo que eu queria, meu sonho não cabia em um escritório, muito menos em gavetas de arquivo cheias de fichas e testes de seleção.

Minha avó tinha um ditado muito legal para esse tipo de situação: “Se não posso ser o manjar, a ameixa também não quero ser”. Larguei tudo. RH, Metrô, Psicologia. Enquanto pensava no que fazer, uma grande amiga também psicóloga e já então tradutora, a Cris Boa, me indicou para fazer um teste na Nova Cultural. Os originais eram escritos em espanhol, e os livros (faroeste!) eram vendidos em banca de jornal. Passei no teste, fiz alguns livros e… a coleção acabou! Mas o editor gostava do meu trabalho, me indicou para um teste em outra coleção com originais em inglês, e lá fui eu traduzir romances de banca. Sabrina, Bianca, Júlia… Fui traduzindo, dizendo a mim mesma que estava ali de passagem, que um dia encontraria outro caminho… Mas quando a gente se apaixona, não há nada que faça mudar o caminho.

E aqui estou, 24 anos depois, ainda traduzindo! Já fiz um pouco de tudo, ficção ou não, romances, clássicos, históricos, grandes autores, outros desconhecidos, grandes sucessos, nem tanto, livros que viraram filmes, livros que nasceram de filmes, séries de todos os tamanhos… E depois de duas décadas e meia, continuo apaixonada pela literatura e pela tradução. Não tenho dúvida de que não saio mais daqui, e também tenho certeza de que o universo “armou” para me colocar naquele exato lugar, naquele exato momento em que tudo começou, porque esse era meu caminho.

Não sei quantos livros traduzi. Tenho enorme carinho e gratidão por todos, e cada um deles tem um pouquinho de mim. Os que traduzi morando ainda com meus pais, os que traduzi no começo do namoro, nas vésperas do casamento, nos primeiros dias da nossa casa, os que traduzi com os braços esticados, porque o barrigão de grávida me obrigava a ficar longe do teclado, os que traduzi entre uma mamada e outra, nas horas em que a pequena ficava na escolinha… os que estou traduzindo agora, enquanto a “pequena” se prepara para o vestibular. Uma história de contar histórias que não são minhas, mas que pego pela mão e, com o cuidado de quem leva para passear um filho alheio, trago para o lado de cá do mundo, mostro a outro povo.

Nesse caminho fiz vários amigos, conheci muita gente interesse, e juntos temos desmentido o mito de que o tradutor é um profissional solitário. Aqui estamos nós, quatro exemplos de que não precisa ser assim.

E agora decidimos contar um pouco das nossas histórias, de como é fazer essa ponte e ajudar a espalhar tantos livros pelo mundo. Vai fazendo as malas, pega o passaporte… A viagem vai ser legal. Vem!

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