Olhando para trás

Vi a capa de um livro que acabou de ir para as livrarias, uma tradução minha de uma obra muito especial: O exorcista, edição de 40 anos.

Senti uma emoção diferente.

Todos os livros que traduzi até hoje foram importantes, todos eles me causaram uma onda de orgulho, todos eles me motivaram a continuar e me deram a certeza de que escolhi um caminho lindo para a minha vida. Mas o livro que vi hoje me levou para dar uma volta no passado. Desde o dia, lá em 1989, 1990, provavelmente, quando vi a palavra “tradução” pela primeira vez, num livro que a minha irmã mais velha estava lendo. Era o Tal Mãe, Tal Filha, da Marylin French (fui pesquisar agora e vi que foi lançado em 1987 pela Editora Best Seller, tradução de Cacilda Rainho Ferrante). Depois, fui para 2000, quando estava morando nos Estados Unidos e comprei o livro Chicken Soup for the Soul para dar de presente a uma amiga no aniversário dela. Quando voltei ao Brasil, vi o Histórias para Aquecer o Coração, da editora Sextante, e relacionei um ao outro, fiquei encantada comparando a tradução e o original. Já estava na Ibero, amando o curso de Tradução e Interpretação (as aulas, para mim, eram palestras motivacionais, não aulas comuns, porque eu queria fazer/ser tudo aquilo que estava aprendendo), com professores ótimos, como o saudoso Fernando Dantas, Rosalind Mobaid, Adauri Brezolin, Garcez… Quantas horas passei na frente do computador, naqueles anos de faculdade, enviando currículo (pobrinho!) para editoras, estudando língua portuguesa, treinando tradução com os livros traduzidos por vários tradutores (principalmente o Renato Motta, que eu imaginava ser um rapaz de vinte e poucos anos, tamanha a desenvoltura que ele tinha pra entrar no clima dos chick lits da vida… :D). Minha primeira oportunidade em uma editora, revisando as traduções feitas para a Editora Landscape (que já fechou) e, um ano depois, já grávida, a alegria de receber, por telefone (eu estava no Rio Grande do Sul, lembro muito bem) a proposta para traduzir o primeiro livro da minha vida, The Bitch in the House, para a Landscape. Em seguida, viria o livro do marido da autora do primeiro, que decidiu escrever The Bastard on the Couch.

Vários livros para a Landscape depois, comecei a ficar mais à vontade para alçar novos voos, bater em novas portas. Traduzi muitos e muitos livros infantis, tive a alegria de receber muitos deles e colocá-los diretamente nas mãos do meu filho, que foi crescendo com livrinhos adequados para cada fase de sua vida.

As revisões também marcaram presença. Comecei com últimas provas de livros, passei um ano como revisora de fofocas no site OFuxico, cheguei à Melhoramentos, revisei até as lindezas do Ziraldo, autor que me encantava na infância, e a lista foi só crescendo.

Consegui um espaço na Bertrand Brasil, com um dos melhores editores que conheci, o Rafael Goldkorn, que abriu para mim (talvez sem saber),  um mundo de conhecimento, quando mandava de volta as minhas traduções, para eu analisar as alterações feitas pelo copidesque. Aprendi muito observando como os colegas mais experientes moldavam o meu texto, anotava todas as boas sacadas e, assim, fui aprendendo e ganhando bagagem.

E foram tantas outras emoções, tantos momentos dignos de destaque, que me fizeram crescer em muitos aspectos… Tive momentos ruins também, claro, mas passaria por todos eles de novo, porque aprendi demais.

Cada livro que passou por mim trouxe uma mensagem; muitas vezes, a mensagem de que eu mais precisava naquele momento. Várias vezes me vi traduzindo/revisando/lendo livros que tinham a ver com uma determinada situação da minha vida.

Tentei, sem compromisso, outros caminhos da tradução, como a interpretação, mas não deu certo, porque além de afobada pra falar, eu queria sempre achar a palavra mais bonita para expressar uma ideia, e não a mais rápida. Seria frustrante interpretar X e pensar depois que poderia ter dito Y.

E os amigos? E o monte de gente diferente que essa escolha me trouxe? Alguns dos meus melhores amigos, algumas das minhas melhores risadas, várias das minhas melhores histórias 🙂 Eu não esperava, lá atrás, quando decidi traduzir, que chegaria a ser responsável por livros tão legais. Na verdade, eu só queria um trabalho que me permitisse escrever e trabalhar em casa, porque delegar ou me subordinar todos os dias dentro de um escritório nunca foram opções que me agradaram. Ganhei muito mais, meu desejo se transformou em algo muito mais lindo do que eu imaginei.

Em agosto deste ano, apresentei a minha primeira palestra num congresso. Pouco tempo, muito assunto, uma certa ansiedade. Foi legal, mas já tomei nota de pontos nos quais preciso melhorar. Tenho mais assuntos agora, me disseram que fui mordida pelo bichinho orador 😀 Espero continuar vivendo com os livros para poder ter muito o que falar, para ter o que trocar com mais pessoas.

Agora, com 33 anos, olho para trás e sinto orgulho desses dez anos de trabalho. Olho para a frente e me sinto pronta para mais dez, mais dez, mais dez. Só vivi 1/3 do que acho justo viver, então que venham os próximos 33 anos de trabalho e alegrias 😉

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2 comentários sobre “Olhando para trás

  1. Texto lindo, lindo, lindo e MUITO motivador!

    Carol, você acabou de desmistificar aquele estigma do tradutor-literário-sofredor-morto-de-fome! Esse texto vai mostrar para muita gente como esse é um caminho não só viável como recompensador.

    Na faculdade, grande parte dos professores nos desmotivavam com relação ao que a tradução literária poderia oferecer; criou-se uma aura de “impossível” que você, com um depoimento simples e verdadeiro como esse, desmonta em poucos segundos. Vou adorar ler esse blog e tudo o que vocês têm a nos contar.

    Vida longa ao Ponte de Letras e muito sucesso!

  2. Fiquei comovido de verdade, Carol. Eu também passei por todas essas fases que você descreveu de forma singela, mas muito forte. Também tive um tradutor que me serviu de modelo e me ensinou muitas coisas (Pinheiro de Lemos, que já faleceu). Saber, de repente, que passei para o lado dos “tradutores admirados”, como numa espécie de círculo que se fecha, me deixou muito feliz. Você tem uma força fabulosa. Vá em frente com fé, porque as coisas boas na sua vida estão só começando. Mais uma coisa: vou correndo comprar O Exorcista com tradução sua. Esse é um livro que me deixou sem dormir na adolescência, por medo e compulsão de ler o capítulo seguinte. Portanto, é mais um círculo que se fecha. Muito sucesso para o blog. Já vi que só tem gente boa no Ponte de Letras!

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